MEU PAI
A Figura de Adash e a Tradição dos Ashokhs
Reconhecimento e Habilidades Fenomenais: O pai do autor, conhecido pela alcunha de “Adash”, destacou-se nas décadas finais do século XIX e início do XX como um ashokh, um bardo amador amplamente popular na Transcaucásia e Ásia Menor.
Apesar de iletrados e sem educação formal, os ashokhs possuíam memória e agilidade mental fenomenais, declamando e cantando longos poemas e melodias de cor e improvisando com rapidez estonteante, habilidades hoje extintas.
As Competições de Improviso: As memórias de infância incluem visitas a concursos onde ashokhs de diversas regiões (Pérsia, Turquia, Cáucaso, Turquestão) competiam diante de multidões, respondendo a perguntas filosóficas ou religiosas através de versos cantados e improvisados em turco-tártaro.
Estas competições, que podiam durar meses, exigiam que as melodias subjetivas correspondessem à tonalidade das consonâncias anteriores (o “eco ansapalnianamente fluente”) e culminavam com prêmios substanciais como gado e tapetes; o autor testemunhou tais eventos em Van, Karabakh e Subatan.
A Narrativa no Lar: Em casa, nas noites de véspera de feriados, o pai contava às crianças histórias sobre povos antigos, Deus, a natureza e milagres, invariavelmente concluindo com contos das “Mil e Uma Noites”, de cujo repertório vasto ele parecia dominar a totalidade.
O Dilúvio Antes do Dilúvio e a Lenda de Gilgamesh
A Discussão Impactante: Uma das impressões mais profundas, que serviu como fator espiritualizante, cristalizou-se durante uma discussão noturna na oficina de carpintaria entre o pai e o Deão Borsh (futuro tutor do autor) sobre a lenda do “Dilúvio antes do Dilúvio”.
Enquanto o tio e o autor ouviam aninhados nas aparas de madeira, o pai recitou a lenda de Gilgamesh, especificamente o vigésimo primeiro canto onde Ut-Napishtim relata a destruição de Shuruppak, e defendeu que essa lenda suméria era a origem do relato bíblico do Dilúvio, provocando um debate acalorado que durou até o amanhecer.
A Confirmação Arqueológica: Anos mais tarde, a leitura de um artigo sobre tábuas babilônicas de quatro mil anos contendo a lenda de Gilgamesh, com o mesmo vigésimo primeiro canto ouvido na infância, provocou no autor uma excitação interior profunda e a compreensão de que seu destino futuro dependia daquela revelação, confirmando a fidelidade da transmissão oral pelos ashokhs.
A Civilização de Haninn e a Irmandade Imastun: Outra lenda paterna descrevia uma civilização avançada setenta gerações antes do último dilúvio, centrada na ilha de Haninn (atual Grécia), onde a Irmandade Imastun praticava astrologia e telepatia.
Os irmãos Imastun, espalhados pelo globo antes da catástrofe, comunicavam-se telepaticamente através de pitonisas em transe, que registravam as mensagens em quatro direções de escrita correspondentes à origem geográfica da transmissão (leste, sul, oeste, norte).
A Educação Através da //Kastousilia//
O Método Original de Borsh e Adash: O Deão Borsh e o pai estabeleceram um procedimento educativo denominado kastousilia (termo possivelmente assírio), que consistia em perguntas e respostas aparentemente absurdas ou deslocadas, mas carregadas de lógica interna e significado profundo.
Exemplo notável foi a pergunta do Deão sobre a localização de Deus (“Deus está agora em Sari Kamish”) e sua atividade (“fazendo escadas duplas para fixar a felicidade”), diálogo mantido com seriedade absoluta que, aos olhos de estranhos, pareceria loucura, mas que ocultava ricos pensamentos alegóricos sobre a condição humana.
Os Valores e a Origem Familiar
Os Quatro Mandamentos: A visão paterna sobre o objetivo da vida centrava-se na criação de liberdade interior e na preparação para uma velhice feliz, alcançável através de quatro mandamentos fundamentais: amar os pais, manter a castidade, ser exteriormente cortês com todos mantendo a liberdade interior, e amar o trabalho pelo trabalho e não pelo ganho.
Ascensão e Queda Econômica: De origem grega bizantina, a família migrou sucessivamente fugindo de perseguições turcas até se estabelecer na Geórgia e depois na Armênia (Alexandropol), onde o pai se tornou um rico proprietário de gado.
Uma peste bovina massiva dizimou não apenas seus rebanhos, mas também os de vizinhos que estavam sob sua responsabilidade segurada, levando-o à falência total e obrigando-o a vender seus bens para honrar compromissos, transformando-se de magnata em carpinteiro.
Resiliência e Caráter: Apesar das falhas comerciais subsequentes (como a serraria) e da necessidade de mudar para Kars para sustentar uma família crescente, o pai manteve uma calma grandiosa e um distanciamento interior, preservando a alma de poeta e criando um ambiente familiar de concórdia e ajuda mútua, mesmo na extrema pobreza.
Concepções sobre a Alma e a Educação do Filho
A Alma como Formação Gradual: Questionado sobre a imortalidade da alma, o pai rejeitava a crença popular na transmigração, afirmando que a alma não nasce com o homem, mas é um “algo” formado gradualmente a partir de uma substância elaborada pelas experiências de vida.
Esse “algo”, de materialidade mais fina e maior sensibilidade, sobrevive temporariamente à morte física e reage a influências externas, analogia confirmada por um experimento de hipnose e exteriorização de sensibilidade (transferência de dor para uma estatueta de cera) realizado pelo autor na presença do pai.
Persistência Pedagógica: A educação imposta pelo pai visava eliminar impulsos de medo e repulsa, forçando o filho a manusear animais repugnantes (cobras, ratos) e a banhar-se em água gelada ao amanhecer, práticas que geraram gratidão futura por terem preparado o autor para superar obstáculos em suas viagens.
O Fim Trágico e o Legado de Sabedoria
Morte e Perda Cultural: O pai morreu em 1917, aos 82 anos, ferido por turcos ao defender sua propriedade durante o ataque a Alexandropol; seus escritos e registros fonográficos foram tragicamente perdidos durante os saques, privando a humanidade de um valioso folclore.
Ditos Subjetivos: A individualidade intelectual do pai é ilustrada por seus ditos favoritos, que pareciam perfeitamente aptos em sua boca, mas absurdos na de outros, revelando uma sabedoria prática e paradoxal (e.g., “A verdade é aquilo de que a consciência pode ter paz”, “Se queres ser rico, faz amizade com a polícia”).
Honestidade Radical: Uma tendência marcante, considerada imprática pelos contemporâneos, era sua aversão instintiva a tirar vantagem da ingenuidade ou azar alheios; sua honestidade absoluta permitia que outros o enganassem, mas ele permanecia interiormente livre e fiel aos seus princípios, preferindo a paz e a meditação noturna sob as estrelas a qualquer ganho material.
O Epitáfio: Impossibilitado de visitar o túmulo do pai, o autor encarrega seus filhos espirituais de erigir uma pedra com a inscrição que sintetiza a unidade essencial e o altruísmo: “EU SOU TU, TU ÉS EU, ELE É NOSSO, NÓS AMBOS SOMOS DELE. ASSIM SEJA TUDO PARA O NOSSO PRÓXIMO.”
