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Por que feminizar a Trindade não vai funcionar

BOURGEAULT, Cynthia. The Holy Trinity and the law of three: discovering the radical truth at the heart of Christianity. First Edition ed. Boston: Shambhala, 2013.

  • Tornou-se cada vez mais comum em círculos teológicos liberais recentes conceber a terceira pessoa da Trindade como feminina, com base em argumentos linguísticos e arquetípicos: o Espírito Santo seria idêntico à Sabedoria, a Sophia do Antigo Testamento personificada como feminina; os termos bíblicos ligados a “espírito” tendem ao feminino; e o Espírito, em sua perceptividade intuitiva e imanente, corporificaria um modo feminino de conhecer que contrabalança o modo masculino do Logos encarnado em Jesus Cristo.
    • Do ponto de vista prático, essa correção de gênero produziria ganhos consideráveis, pois a representação exclusivamente masculina da vida interior de Deus teria lançado as bases teológicas para uma hierarquia política exclusivamente masculina que desvalorizou sistematicamente o lugar do feminino e das mulheres no cristianismo.
    • Uma representação feminina autêntica entre as pessoas da Trindade pareceria uma forma elegante de reparar a injustiça e corrigir os desequilíbrios que distorceram tantas áreas da vida da Igreja.
  • Embora o desejo seja que a questão pudesse ser resolvida tão simplesmente, há crescente convicção de que não pode, pois trata-se de “fazer a coisa certa pelo motivo errado”, e o pensamento metafísico excessivamente míope que essa estratégia introduz tende a causar muito mais dano do que o bem de curto alcance que realiza.
    • Por mais louvável que seja a tentativa de assegurar uma presença feminina na Trindade, a estratégia vigente conduz a uma séria confusão de sistemas metafísicos cujo efeito de longo prazo será deixar o cristianismo à deriva num mar arquetípico pós-junguiano, com seu gênio intuitivo fatalmente embotado.
  • Teólogas feministas mais argutas, como Elizabeth Johnson, já perceberam a armadilha nessa correção de curto alcance e argumentaram pela necessidade de uma revisão mais abrangente, demonstrando em sua influente obra Aquela que É que a tentativa de reclamar a terceira pessoa da Trindade como “a dimensão feminina de Deus” representa um duplo perigo.
    • Esse duplo perigo diminui o pleno alcance da feminilidade por meio de uma estereotipagem de gênero que associa o feminino apenas a qualidades de amparo, ternura e receptividade.
    • Ao mesmo tempo, diminui a plenitude da divindade ao “ontologizar o sexo em Deus”, estendendo divisões humanas à própria Divindade.
    • A solução de Johnson, baseada no reconhecimento da natureza simbólica da linguagem, oferece um conjunto abrangente de metáforas equivalentes que permitem retratar as três pessoas da Trindade em imagens femininas, mas ainda é um rearranjo de superfície que revisiona as pessoas sem tocar no próprio conceito de pessoalidade divina, sendo, portanto, uma solução no nível teológico quando a fonte real do enigma está no nível metafísico.
  • Os cristãos não estão habituados a pensar a Trindade em termos de processo metafísico, tendo sido treinados a pensar que ela diz respeito a “pessoas” — cujos nomes são Pai, Filho e Espírito Santo e que vivem em comunidade eterna, autogeradora e autossustentada.
    • A Trindade é primariamente sobre como Deus se move e flui, como Deus muda de uma forma a outra dentro do domínio da manifestação e interpenetra a mutabilidade da criação com a plenitude do ser divino.
    • A ideia de que a Trindade possa ser sobre processo em vez de pessoas parece noção radical, mas é esse o ponto de partida necessário.
  • A Trindade encapsula um paradigma de mudança e transformação baseado num antigo princípio metafísico conhecido como Lei do Três, sendo as pessoas não incidentais, mas derivativas na medida em que se desdobram e se manifestam segundo esse princípio mais fundamental, que se mostra como o coração da autocompreensão metafísica cristã.
    • A maioria dos antigos paradigmas metafísicos do mundo são sistemas binários que funcionam sobre o princípio de opostos emparelhados, como yin/yang, masculino e feminino, luz e trevas, prakriti e purusha.
    • Nos sistemas binários o universo é criado e sustentado pelo interplay simétrico das grandes polaridades, e um afrouxamento dessa tensão por desequilíbrio das partes leva ao colapso do sistema.
  • Um sistema ternário concebe um misto distintamente diferente: em lugar de opostos emparelhados, o interplay das duas polaridades evoca uma terceira, que é o princípio “mediador” ou “reconciliador” entre elas, e essa terceira força, ponto crucial, gera uma síntese em nível inteiramente novo.
    • O exemplo da semente ilustra o princípio: semente (primeira força afirmativa) encontra terra úmida (segunda força negativa), mas nada acontecerá até que a luz solar, terceira força reconciliadora, entre na equação, e entre as três geram um broto que é a atualização da possibilidade latente na semente.
    • O exemplo do veleiro reforça o princípio: o vento nas velas (primeira força) e a resistência do mar contra a quilha (segunda força) não bastam para o movimento adiante; é necessária uma terceira força, o rumo ou destino, pela qual o timoneiro determina o ajuste correto da vela e o posicionamento da quilha.
  • Um sistema binário e um sistema ternário não podem ser misturados porque partem de metáforas fundamentalmente diferentes de processo, como tocar três contra dois numa sonata de Brahms, em que os tempos não se alinham.
    • Num sistema ternário as categorias masculino e feminino não se computam estritamente, pois o sistema ternário não trata de opostos emparelhados, mas de processo tríplice.
    • A dualidade leva à recorrência cíclica, enquanto toda progressão ou movimento adiante no tempo opera segundo a Lei do Três, cuja assimetria cria o impulso necessário para o avanço.
    • Olivier Clément observou em As Raízes do Misticismo Cristão que “um Deus solitário não poderia ser 'amor sem limites'”, e que o Três-em-Um denota a perfeição da Unidade que se realiza na comunhão e sugere a superação perpétua da contradição.
  • C. G. Jung foi o primeiro a sugerir a quaternidade como “aperfeiçoamento” da Trindade, notando que a forma quadrangular, especialmente o mandala, possui maior estabilidade e completude arquetípica do que o triângulo, e propôs que o “feminino perdido” na Trindade cristã poderia ser encontrado estendendo a forma numa quaternidade, acrescentando o feminino como polo inferior ou terrestre.
    • O Padre Bruno Barnhart, em seu Segunda Simplicidade, abraça entusiasticamente o esquema quádruplo de Jung ao mesmo tempo que introduz uma variação significativa: localiza o feminino no terceiro polo em vez do quarto, posição que coincide com a colocação tradicional do Espírito Santo no pensamento trinitário, emergindo como “o Espírito imanente e unitivo… o Divino Feminino… a sabedoria e o poder interiores que movem a história da humanidade em direção à sua consumação”.
    • Embora a atração inicial da quaternidade seja forte, representando nas palavras de Barnhart “o casamento do princípio masculino de estrutura e polaridade com o princípio feminino de totalidade, simplicidade e unidade”, a quaternidade é de fato apenas um duplo binário que opera sob a lei mitológica anterior dos opostos emparelhados e, portanto, troca de trilho metafísico, enfraquecendo o eixo motor assimétrico dinâmico da autocompreensão do sistema ternário.
  • A fonte real do dilema teológico presente reside no nível metafísico, especificamente no problema que a própria Trindade, por sua hermenêutica interna, busca evitar: a conflação de princípio eterno e processo temporal.
    • A difícil costura de Jesus como ser humano e como hipóstase divina perturbou teólogos por séculos e permanece no cerne do enigma atual, onde um princípio eterno masculino parece exigir um feminino que o contrabalance.
    • O Espírito Santo, quando a distinção entre os planos eterno e temporal se perde, emerge como conflação da Sabedoria eterna com a presença energética do Cristo ressuscitado, tensão de opostos que nem mesmo Barnhart consegue reconciliar satisfatoriamente.
  • A solução não é abandonar o princípio ternário, mas aplicá-lo, permitindo que a Trindade volte a fluir, pois como princípio metafísico a Trindade é por natureza cinética, transbordando-se em novas expressões de sua tremenda energia criativa.
    • Na insistência dogmática em apenas uma tríade do eterno princípio manifestante (Pai-Filho-Espírito Santo), sua energia foi engarrafada e suas manifestações desdobradas foram conflacionadas.
    • O princípio ternário corta transversalmente os opostos emparelhados e envolve tanto o masculino quanto o feminino em pontos variáveis segundo a tríade particular, de modo que o feminino não é automaticamente sempre a força negativa ou receptiva, mas pode ser negador, afirmador ou reconciliador, pois as posições são fluidas.
    • Boehme expressou o grande segredo da Trindade como princípio metafísico ao falar de “a impressão do nada em algo”: como o princípio eterno chega a se manifestar no tempo e na forma.
  • Se o dilema feminista há de ser satisfatoriamente resolvido, a tarefa real é ter a coragem de largar a Trindade como trunfo teológico do cristianismo e abordá-la em seu papel cosmicamente sutil de princípio ordenador e revelador, do qual Cristo é a expressão culminante.
    • Ao usar indevidamente o princípio metafísico como sustentáculo doutrinário, perdeu-se a energia inerente para a transformação.
    • Uma nova expansividade na busca poderia revelar que a Trindade guarda tesouros ainda insuspeitos.
    • Abandonar ou adulterar o arcano numa tentativa bem-intencionada mas mal-raciocínada de fortalecer a dimensão “feminina” do cristianismo é tomar um rumo errado e muito perigoso.
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