lei de três

In Search of the Miracolous

Na descrição do que considera a lei fundamental da criação de todos os fenômenos, Gurdjieff oferece duas versões que merecem comparação: a primeira na década de 1910, ainda na Rússia, foi anotada por Ouspensky em seu livro Fragmentos; a segunda, foi dada pelo próprio Gurdjieff em seu livro Relatos de Belzebu, onde qualifica esta lei de sagrada e a denomina Triamazikamno. A seguir um extrato da descrição apresentada nos Fragmentos.

“É a”Lei de Três“, a lei dos Três Princípios ou das Três Forças. Segundo esta lei, todo fenômeno, em qualquer escala e em qualquer mundo que ocorra, do plano molecular ao plano cósmico, é o resultado da combinação ou encontro de três forças diferentes e opostas. O pensamento contemporâneo reconhece a existência de duas forças e a necessidade dessas duas forças para a produção de um fenômeno: força e resistência, magnetismo positivo e negativo, eletricidade positiva e negativa, células masculina e feminina e assim por diante. Ainda assim, não constata sempre nem em toda parte a existência dessas duas forças. Quanto à terceira força, jamais se preocupou com ela ou, se lhe aconteceu um dia levantar tal questão, ninguém disso se apercebeu.

“Segundo o verdadeiro e exato conhecimento, uma força ou duas forças jamais podem produzir um fenômeno. A presença de uma terceira força é necessária porque somente com seu auxílio é que as duas primeiras podem produzir um fenômeno, em qualquer plano.

“A doutrina das três forças está na raiz de todos os sistemas antigos. A primeira força pode ser denominada ativa ou positiva; a segunda, passiva ou negativa; a terceira, neutralizante. Mas são simples nomes. Na realidade, essas três forças são tão ativas uma quanto a outra; aparecem como ativa, passiva e neutralizante, unicamente em seus pontos de encontro, isto é, apenas no momento em que entram em relação umas com as outras. As duas primeiras forças são, mais ou menos, compreensíveis e a terceira pode ser descoberta, às vezes, quer no ponto de aplicação das forças, quer em seu”meio”, quer em seu “resultado”. Mas, em geral, é difícil observar e compreender a terceira força. A razão disso deve ser buscada nos limites funcionais de nossa atividade psicológica comum e nas categorias fundamentais de nossa percepção do mundo dos fenômenos, isto é, em nossa sensação do espaço e do tempo, resultante dessas limitações. Os homens não podem nem perceber nem observar diretamente a terceira força, do mesmo modo que não podem perceber especialmente a “quarta dimensão”.

“Mas, estudando-se a si mesmo, estudando as manifestações de seu pensamento, de sua consciência, de sua atividade, de seus hábitos, de seus desejos, etc., pode-se aprender a observar e a ver em si mesmo a ação das três forças. Suponhamos, por exemplo, que um homem queira trabalhar sobre si mesmo para mudar certas características, para alcançar um grau mais elevado de ser. Seu desejo, sua iniciativa, será a força ativa. A inércia de toda a sua vida psicológica habitual, que se opõe a essa iniciativa, será a força passiva ou negativa. Ou bem as duas forças se contrabalançarão ou bem uma vencerá completamente a outra, mas será desde então fraca demais para qualquer ação ulterior. Assim, as duas forças deverão, de algum modo, girar uma em torno da outra, uma absorvendo a outra, e não produzirão nenhuma espécie de resultado. E isso pode prolongar-se durante toda uma vida. Um homem pode experimentar um desejo de iniciativa. Mas toda a sua força de iniciativa pode ser absorvida por seus esforços para vencer a inércia habitual da vida, nada lhe sobrando para atingir a meta para a qual deveria tender sua iniciativa. E isto pode permanecer assim até que a terceira força apareça, por exemplo, sob a forma de um novo saber, que mostrará imediatamente a vantagem ou a necessidade de um trabalho sobre si e que, deste modo, sustentará a iniciativa e a reforçará. Então, a iniciativa, com o apoio da terceira força, poderá vencer a inércia e o homem tornar-se-á ativo na direção desejada.

“Exemplos da ação das três forças e dos momentos em que a terceira força entra em jogo podem ser descobertos em todas as manifestações de nossa vida psíquica, em todos os fenômenos da vida das comunidades humanas, da humanidade considerada em seu conjunto e em todos os fenômenos da natureza que nos rodeia.

“No início, bastará compreender o princípio geral: cada fenômeno, por maior que seja, é necessariamente a manifestação de três forças; uma ou duas forças não podem produzir um fenômeno e, se observarmos uma parada no que quer que seja ou uma hesitação infindável no mesmo lugar, podemos dizer que nesse lugar falta a terceira força. Para tentar compreendê-la, é necessário ainda lembrar-se de que não podemos ver os fenômenos como manifestações das três forças porque, nos nossos estados subjetivos de consciência, o mundo objetivo escapa a nossas observações.

“E, no mundo dos fenômenos, subjetivamente observado, vemos apenas a manifestação de uma ou de duas forças. Se pudéssemos ver a manifestação de três forças em qualquer ação, veríamos então o mundo tal qual é (as coisas em si mesmas). É necessário apenas lembrar-se aqui de que um fenômeno de aparência muito simples pode na realidade ser complicado, isto é, pode ser uma combinação muito complexa de trindades. Sabemos, entretanto, que não podemos ver o mundo tal qual é e isso deveria ajudar-nos a compreender por que não podemos ver a terceira força. A terceira força é uma propriedade do mundo real. O mundo subjetivo ou fenomenal de nossa observação só é real relativamente, em todo caso não é completo.