Para os poucos “idiotas especiais” entre os seres
tricerebrais dotados da rara capacidade de reconhecer e seguir um bom conselho, a recomendação é familiarizar-se antes com todos os escritos de
Gurdjieff, inclusive
Relatos de Belzebu a seu Neto, o livro mais difícil de compreender já escrito, pois sem o conhecimento da linguagem pictórica de
Gurdjieff certos aspectos dessa obra são incompreensíveis, algo que foi deliberadamente planejado por ele.
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A dificuldade não é atribuída ao leitor, mas ao design intencional de
Gurdjieff.
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O que importa inicialmente é a transferência de certos “ingredientes” para o subconsciente do leitor, processo que deve ser completado antes de qualquer possibilidade de benefício substancial.
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Quem ainda não leu
Relatos de Belzebu a seu Neto de capa a capa deve fazê-lo antes de prosseguir, combatendo o sono com leitura em voz alta, de pé ou caminhando, com café ou outros recursos, pois este livro foi especialmente preparado para aguardar e pacientemente espera até que o trabalho preparatório esteja feito.
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Além de
Relatos de Belzebu a seu Neto, devem ser lidos
Encontros com Homens Notáveis e A vida só é real quando “Eu sou”, para que o leitor esteja ao menos minimamente preparado para a linguagem pictórica de
Gurdjieff, a Inculcação Ilustrativa e a instrução pessoal de um verdadeiro iniciado a outro, tal como contida nas imagens de
Gurdjieff.
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Sem essa preparação, o conteúdo do livro será no máximo informativo, entretenimento ou estimulação intelectual para quem aprecia quebra-cabeças, mas será inevitavelmente “coisa de cabeça”, inútil para o leitor, chamado de “Cookie”, e potencialmente prejudicial aos seus estudos de
Gurdjieff.
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Todos são “cookies” na mesma Grande Cozinha, em estágios variados de cozimento: alguns nunca passam da massa crua e são devolvidos à tigela ao fim do dia; outros, por acaso, entram em fornos velhos e de baixa temperatura, onde ganham solidez lentamente e com sofrimento.
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O leitor que entrou no “quarto canto” da cozinha, o canto de
Gurdjieff, encontra ali um Mestre Cozinheiro que adiciona ingredientes secretos especiais, tornando o cookie mais saboroso para os deuses e, se o leitor fizer sua parte, as especiarias inclusas no preparo o farão sair do forno quente não como um cookie comum, mas como portador de ser subjetivado e consciência objetiva, tornando-o membro da equipe da cozinha.
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Cookies conscientes são descritos como raros e valiosos demais para serem consumidos como simples petisco.
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A condição de membro da equipe da cozinha é apresentada como superior à de ser devorado ou a de vagar perdido.
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A descrição realista do destino pós-forno, embora menos agradável que fantasias ao estilo Papai Noel, é preferível a ser devorado ou a errar pela cozinha cósmica tentando fornos de toda sorte, e como membro da equipe há sempre a possibilidade de ascensão na carreira para um Ajudante de Cozinha dotado de consciência objetiva.
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A recomendação final é familiarizar-se com todos os escritos de
Gurdjieff, reunindo assim ingredientes essenciais, e então retornar ao livro, que aguardará pacientemente, para que, com a ajuda de vários “velhos alunos” de
Gurdjieff especialmente preparados, a porta do forno possa ser aberta.
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É permitido ler os três primeiros capítulos sem ter feito a preparação, mas não se deve ir além do capítulo intitulado “O Pensamento Oculto de
Belzebu” antes de ter lido e meditado todos os livros de
Gurdjieff na sequência requerida.
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O capítulo “O Pensamento Oculto de
Belzebu” marca o limite até onde o leitor despreparado pode avançar.
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A sequência dos livros de
Gurdjieff é apresentada como requisito, não como sugestão.
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Para quem já tem boa familiaridade com o ensinamento de
Gurdjieff, a sugestão é tirar os “velhos sapatos” e deixá-los na porta, pois não é possível usar dois pares ao mesmo tempo, e se os novos incomodarem é sempre possível recuperar os antigos na saída.
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A metáfora dos sapatos velhos e novos retoma o motivo central do livro.
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A abertura ao novo é apresentada como condição reversível, reduzindo a resistência do leitor.
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A convocação final, em voz de lugares menos urbanizados, é para entrar e sentir-se em casa, com homens à direita e senhoras à esquerda.