Adoção da prática estabelecida de concluir uma grande empreitada com um epílogo, posfácio ou texto “do autor”.
Releitura atenta do prefácio “O Despertar do Pensamento” para uma fusão lógica com a conclusão.
Reflexão sobre o Capítulo Inicial e um Acidente Quase Fatal
Sensação de que o primeiro capítulo, escrito há seis anos, parece ter sido escrito há muito mais tempo.
“A sensação do fluxo do tempo é diretamente proporcional à qualidade e quantidade do fluxo de pensamentos”.
Recordação do estado de saúde debilitado durante a escrita, devido a um grave acidente de automóvel.
“Choque e colisão” a toda velocidade contra uma árvore na estrada entre Paris e Fontainebleau.
Resiliência do Espírito Perante a Adversidade Física
Adição sobre a satisfação interior ao observar o sorriso específico dos representantes da ciência exata.
Corpo severamente ferido, descrito como “um pedaço de carne viva numa cama limpa”.
Espírito corretamente disciplinado não deprimido, mas com poder intensificado pela excitação prévia e pela decepção com pessoas e ideais.
Referência ao mandamento incutido na infância: “o mais alto objetivo e sentido da vida humana é o esforço para atingir o bem-estar do próximo”, possível apenas pela “renúncia consciente de si mesmo”.
Decisão de Anexar uma Palestra como Conclusão
Decisão, após releitura do capítulo inicial e recordação dos textos seguintes, de não escrever conteúdo adicional.
Decisão de anexar a primeira de várias palestras lidas publicamente durante a existência da instituição fundada pelo autor.
A instituição fundada sob o nome de “Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem”.
Liquidação do Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem
Declaração categórica de que a instituição foi liquidada completamente e para sempre.
Decisão tomada por impulso de pesar e desânimo, para evitar uma catástrofe futura.
Reflexão, três meses após o acidente, sobre a impossibilidade de manter a instituição sem pessoas reais e sem os meios materiais necessários.
Risco de o resultado ser, para o autor na velhice e para outros dependentes, uma “vegetação”.
Sobre a Palestra Escolhida e os Pupilos que se Transviaram
Palestra lida por “pupilos de primeira classe” que posteriormente revelaram predisposição para a psique Hasnamussiana.
Descrição desses pupilos que, no momento de crise, “tremendo por suas peles”, desertaram do trabalho comum.
Indivíduos que, “com o rabo entre as pernas”, retiraram-se para suas tocas e abriram “barracas de mascate” para fabricar “candidatos a manicômios”.
Razões para Anexar Esta Palestra em Particular
Primeira razão: a palestra foi preparada como introdução ou limiar para toda a série subsequente de palestras.
A soma das palestras tornava possível clarificar a necessidade e a possibilidade de atualizar as verdades imutáveis estabelecidas pelo autor.
Segunda razão: durante a última leitura pública, o autor fez um acréscimo que corresponde ao pensamento oculto introduzido pelo próprio Sr. Belzebu no seu “acorde final”.
O acréscimo ilumina “esta máxima verdade objetiva” e permite ao leitor percebê-la e assimilá-la como convém a um ser que afirma ser “imagem de Deus”.
Palestra Número Um — A Variedade, Segundo a Lei, das Manifestações da Individualidade Humana
A individualidade de todo homem, ao início da vida responsável, deve consistir em quatro personalidades distintas.
Primeira personalidade: a totalidade do funcionamento automático próprio do homem e dos animais, erroneamente chamada de “consciência” ou “mentalização”.
Segunda personalidade: a soma dos resultados dos dados depositados através dos seis órgãos receptores de vibrações qualificadas.
Terceira personalidade: o funcionamento primário do organismo e as manifestações motoras-reflexas-recíprocas.
Quarta personalidade: a manifestação da totalidade dos resultados do funcionamento automatizado das três primeiras, chamada de “Eu”.
Estrutura e Educação das Partes do Homem
Cada uma das três primeiras partes tem uma “localização-centro-de-gravidade” independente para a sua espiritualização e manifestação.
É indispensável uma educação especial e correta para cada uma dessas três partes, e não o tratamento atualmente chamado de “educação”.
Só então o “Eu” que deveria estar num homem pode ser o seu próprio “Eu”.
A Necessidade de Desenvolvimento Harmonioso
A presença comum de todo homem, especialmente daquele que aspira ser “intelligentsia”, deve consistir nas quatro personalidades plenamente determinadas.
Cada personalidade deve ser desenvolvida de forma correspondente para garantir que as suas manifestações harmonizem umas com as outras.
Analogia entre o Homem e um Coche
Um homem como um todo é comparável a uma organização de transporte composta por coche, cavalo e cocheiro.
As funções e manifestações do sentimento correspondem ao cavalo.
A consciência ou mentalização corresponde ao cocheiro.
O “Eu” corresponde ao passageiro no coche.
A diferença entre um homem real e um pseudo-homem está no passageiro: no homem real, é o dono do coche; no pseudo-homem, é um transeunte qualquer.
O Mal Fundamental entre os Contemporâneos
A quarta personalidade (o “Eu”) está totalmente ausente na maioria das pessoas ao atingirem a idade responsável.
As pessoas consistem apenas nas três primeiras partes, formadas de forma arbitrária.
O homem contemporâneo é como um “coche de aluguel” composta por: uma carruagem velha e avariada, um cavalo fracote e um cocheiro andrajoso, semi-dormindo e semi-ébrio.
Caracterização do Cocheiro (Mentalização)
O cocheiro é um tipo “cocheiro de aluguel” (cabby), não totalmente analfabeto, mas ignorante e pretensioso.
“Corria com os corvos mas foi ultrapassado pelos pavões”.
Considera-se competente em religião, política e sociologia; argumenta com os iguais, ensina os inferiores e é servil com os superiores.
Fraquezas: perseguir cozinheiras e empregadas, comer e beber copiosamente, e sonhar acordado.
Para gratificar essas fraquezas, rouba parte do dinheiro destinado à alimentação do cavalo.
Aprendeu a ser astuto, a lisonjear e a mentir para obter gorjetas.
Caracterização do Cavalo (Sentimento)
O cavalo, devido à negligência e maus-tratos durante a sua formação, é como se estivesse trancado dentro de si mesmo.
A sua “vida interior” é conduzida para dentro, e para manifestações externas só tem inércia.
Nunca recebeu educação especial, sendo moldado apenas por surras e insultos.
As suas inclinações concentram-se em comida, bebida e o anseio automático pelo sexo oposto.
Não compreende porque deve fazer algo, cumprindo as suas obrigações por inércia e medo de mais surras.
A carruagem, feita de vários materiais e de construção complicada, foi projetada para andar em caminhos secundários.
O princípio da sua lubrificação foi concebido para que a graxa se espalhasse com os solavancos desses caminhos.
Agora, a carruagem viaja em estradas asfaltadas e niveladas, onde não há solavancos, levando a uma lubrificação não uniforme e à ferrugem de algumas partes.
O cocheiro não sabe lubrificá-la corretamente, e quando a carruagem tem de ir por um caminho secundário, avaria-se.
Reparar a carruagem pode exigir desmontá-la toda, limpar as peças e, por vezes, substituir uma peça, o que pode ser mais caro que uma carruagem nova.
Aplicação da Analogia à Organização do Homem
Tudo o que foi dito sobre as partes separadas de uma cocheira de aluguel aplica-se plenamente à organização geral da presença comum do homem.
O homem contemporâneo é um algo confuso e extremamente ridículo, comparável a uma carruagem elegante puxada por um cavalo miserável, com um cocheiro desmazelado usando um cartola nova e um crisântemo na lapela.
Falta de Formação e Entendimento Mútuo entre as Partes
As três partes formadas no homem começam a “viver” e a fixar-se nas suas manifestações específicas separadamente umas das outras.
Nunca foram treinadas para a manutenção recíproca, assistência recíproca ou entendimento recíproco.
Quando são necessárias manifestações concertadas, estas não aparecem.
O cocheiro (mentalização) pode, até certo ponto, explicar os seus desejos e entender os outros, graças ao sistema de educação baseado na repetição de palavras.
O cavalo (sentimento), ignorado e maltratado, não adquire nada correspondente à psique do cocheiro, nem aprende as suas formas de relação.
Não se estabelece contacto entre eles para se entenderem.
Conexões entre as Partes e a sua Ineficácia
O corpo está ligado à organização do sentimento pelo sangue.
A organização do sentimento está ligada à organização da mentalização pelo Hanbledzoin, a substância que surge a partir de esforços de ser intencionais.
O sistema de educação errado levou a que o cocheiro (mentalização) deixasse de ter qualquer efeito sobre o cavalo (sentimento), exceto transmitir três ideias: direita, esquerda e para.
As rédeas (conexões) são ineficazes, pois mudam com as condições atmosféricas (incham com a chuva, etc.).
O mesmo ocorre na organização do homem quando a “densidade e o tempo” do Hanbledzoin mudam, e os pensamentos perdem a possibilidade de afetar a organização do sentimento.
Resumo e a Necessidade de ter um “Eu” Próprio
É necessário reconhecer que todo o homem deve esforçar-se por ter o seu próprio “Eu”.
Caso contrário, será sempre uma cocheira de aluguel na qual qualquer passageiro pode sentar-se e dispor como lhe aprouver.
O Objetivo do Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem
O Instituto, organizado segundo o sistema do Sr. Gurdjieff, tem como tarefas fundamentais:
Educar correspondentemente cada uma das personalidades independentes separadamente, bem como na sua relação recíproca geral.
Gerar e fomentar em cada aluno o que todo o portador do nome de “homem sem aspas” deve ter: o seu próprio “Eu”.
Definição Científica da Diferença entre Homem Genuíno e Homem com Aspas
Citação do Sr. Gurdjieff: “Para a definição de homem, considerado do nosso ponto de vista, nem o conhecimento anatômico, nem fisiológico, nem psicológico contemporâneo dos seus sintomas nos pode auxiliar”.
Definição: “O homem é um ser que pode 'fazer', e 'fazer' significa agir conscientemente e por iniciativa própria”.
Esta definição é considerada a mais completa e exaustiva.
A Incapacidade do Homem Contemporâneo para “Fazer”
Questiona-se se um homem, produto da educação e civilização contemporâneas, pode fazer algo conscientemente e pela sua própria vontade.
Resposta: Não.
Razão: “Tudo sem exceção, do princípio ao fim, faz-se a si mesmo no homem contemporâneo, e não há nada que um homem contemporâneo faça a si mesmo”.
Esta afirmação coincide com o que diz a “ciência exata-positiva” contemporânea: o homem é um organismo complexo que reage de forma complexa a impressões externas.
O Homem como Máquina e a Ausência de Vontade Real
Segundo as ideias do Sr. Gurdjieff, o homem médio é incapaz da mais pequena ação ou palavra independente ou espontânea.
O homem é uma “máquina transformadora”, uma “estação transmissora de forças”.
O homem difere dos animais apenas pela maior complexidade das suas reações e pela sua construção mais complexa.
O Sr. Gurdjieff nega completamente a possibilidade de existência de “vontade” na presença comum do homem médio.
O que as pessoas chamam de vontade é exclusivamente a resultante de desejos.
A vontade real é um sinal de um grau de Ser muito elevado e só pertence àqueles que podem “fazer”.
Todas as outras pessoas são autômatos, máquinas ou brinquedos mecânicos movidos por forças externas.
Descrição Pictórica da Ausência de Vontade
Passagem de outra palestra do Sr. Gurdjieff, descrevendo um homem de posses, cultura e reputação de grande vontade.
Narrativa de um dia deste homem, mostrando como o seu estado de espírito e ações são totalmente influenciados por pequenos acontecimentos externos (escova que cai, espelho partido, criado que se esquece do jornal, mulher loira que o elogia, carta lisonjeira, etc.).
Conclusão: “Poderia continuar este quadro do seu dia — homem livre!”.
“Talvez pense que estou a exagerar? Não, é uma fotografia exata da natureza”.
A Ilusão da Vontade e a Formação da Personalidade
Citação de outra “palestra-conversacional” do Sr. Gurdjieff.
“Um homem vem ao mundo como uma folha de papel limpa, que imediatamente todos à sua volta começam a sujar” com educação, moralidade, conhecimento, noções de dever, honra, consciência, etc.
A folha de papel suja (a personalidade) é considerada mérito, e o homem próprio passa a vê-la como tal.
“E assim tem um modelo do que chamamos um homem, ao qual frequentemente se acrescentam palavras como 'talento' e 'gênio'”.
“O homem comum não é livre nas suas manifestações, na sua vida, nos seus humores”.
“Não pode ser o que gostaria de ser; e o que considera ser, não é isso”.
A Dignidade do Nome “Homem” e a Necessidade de Auto-Conhecimento
“Homem — quão poderoso soa! O próprio nome 'homem' significa 'o ápice da Criação'”.
Para ter o direito ao nome de “homem”, é preciso sê-lo.
Para sê-lo, é necessário trabalhar, com persistência incansável e desejo inesgotável, num “conhecimento abrangente de si mesmo”.
É necessário lutar incessantemente com as suas fraquezas subjetivas e, posteriormente, erradicá-las sem piedade para consigo mesmo.
O Homem Contemporâneo como Mecanismo de Corda
Falando francamente, o homem contemporâneo não é mais do que um “mecanismo de corda”, embora de construção muito complexa.
O homem deve pensar profundamente sobre a sua mecanicidade para apreciar o seu significado para a sua vida e para o sentido da sua existência.
A Necessidade de Auto-Observação Correta
O melhor objeto de estudo para a mecanicidade humana é o próprio homem.
Estudar e compreender a mecanicidade só é possível através de uma “auto-observação corretamente conduzida”.
É necessário um aviso: a auto-observação não é tão simples quanto parece e pode ter consequências maléficas se feita sem conhecimento adequado.
Condições para uma Auto-Observação Correta
Primeira condição: o homem deve decidir, de uma vez por todas, ser sincero consigo mesmo, não fechar os olhos a nada, não evitar nenhum resultado, não temer inferências e não se limitar por limites autoimpostos.
É necessária grande coragem para aceitar as inferências obtidas e não desanimar, pois podem “perturbar” todas as convicções e crenças anteriores.
Resultados da Auto-Observação Correta
O homem convencer-se-á da sua “completa impotência e desamparo perante literalmente tudo à sua volta”.
“Tudo o governa, tudo o dirige. Ele não governa nem dirige coisa alguma”.
A sua vida não é mais do que “um reagir cego” a atrações e repulsas.
Verá como as suas visões do mundo, caráter, gosto, etc., são moldadas e como a sua individualidade foi formada.
A Necessidade de uma Linguagem Correta
Segunda condição: é necessário estabelecer uma “linguagem” correta, pois a linguagem contemporânea é inadequada para elucidações exatas.
As palavras da linguagem contemporânea transmitem noções indefinidas e relativas, sendo percebidas “elasticamente” pelas pessoas médias.
A Degradação da Linguagem e da Comunicação
A anormalidade da linguagem deve-se ao sistema anormal de educação, baseado em fazer os jovens “decorar” palavras, diferenciadas apenas pela consonância e não pelo significado real.
Resultado: perda da capacidade de refletir sobre o que se fala e sobre o que é dito.
As pessoas são obrigadas a inventar sempre mais palavras, levando a que cada um dê um significado subjetivo às palavras.
Na conversação, as pessoas dão significados diferentes à mesma palavra, por vezes contraditórios.
Para um observador imparcial, a conversa é percebida como “cacofonia-fantástica-sem-sentido”.
As pessoas imaginam que se compreendem, mas nunca compreendem as mesmas noções pelas mesmas palavras.
Exemplo da Palavra “Mundo”
A palavra “mundo” é usada frequentemente, mas não carrega uma noção exata para a maioria.
Diferentes pessoas (astrônomo, físico, filósofo, religioso, espiritualista, teosofista) dariam definições completamente diferentes para a palavra.
Nenhum homem contemporâneo seria capaz de oferecer uma noção definida e exata do significado real da palavra “mundo”.
A Vida Psíquica do Homem Médio como Contacto Automatizado
Toda a vida psíquica interior do homem médio não é mais do que um “contacto automatizado” de duas ou três séries de associações previamente percebidas.
As impressões são registradas em “aparelhos” no homem, semelhantes a “discos de fonógrafo” de cera limpa.
Cada impressão é inscrita em vários lugares e em várias “bobines”, e é preservada inalterada.
A “memória” é a repetição de impressões previamente percebidas, que entram no campo de atenção do homem.
A Memória do Homem Médio versus a Memória do Homem Real
A memória do homem médio é uma adaptação muito imperfeita, permitindo-lhe utilizar apenas uma parte muito pequena do seu arquivo de impressões.
A memória própria do homem real mantém o controlo de todas as suas impressões, sem exceção.
Experiências mostram que, em estados definidos (como um certo estágio de hipnotismo), um homem pode recordar todos os pormenores de tudo o que lhe aconteceu, mesmo dos primeiros dias de vida.
Interrupção e Adição do Palestrante
O orador interrompe a leitura da palestra e considera oportuno fazer uma adição.
O Homem Comum como Escravo Inconsciente
O homem comum médio é um “escravo inconsciente de todo o serviço universal” a propósitos alheios à sua própria individualidade.
Pode viver todos os seus anos como é e, como tal, ser destruído para sempre.
A Possibilidade de Libertação e Trabalho para Si Mesmo
A Grande Natureza deu ao homem a possibilidade de, servindo os propósitos universais, trabalhar também para si mesmo, para a sua própria individualidade egoísta.
Esta libertação é possível, mas difícil de alcançar, dependendo de razões como a hereditariedade e as condições de formação.
A principal dificuldade consiste em obter, por iniciativa e persistência próprias, a erradicação das consequências fixadas do órgão Kundabuffer.
É necessário explicar este órgão e as suas consequências.
Explicação do Órgão Kundabuffer e das suas Consequências
A Grande Natureza, por razões importantes, colocou nos nossos antepassados remotos um órgão cujas propriedades os protegiam de ver e sentir a realidade como ela é.
O órgão foi posteriormente “removido”, mas, devido à lei cósmica da “assimilação dos resultados de atos frequentemente repetidos”, uma predisposição para as suas consequências foi transmitida por hereditariedade.
Os descendentes, sob condições de vida anormais, assimilaram essas consequências, que adquiriram manifestações semelhantes às dos antepassados.
Exemplo da Incapacidade de Sentir a Própria Morte
Um exemplo da manifestação dessas consequências: um homem não pode “experienciar” conscientemente o processo da sua própria morte.
Pode imaginar a morte de outros, mas não a sua própria de forma real e profunda.
Se um homem contemplasse claramente a inevitabilidade da sua própria morte, isso seria aterrorizante e poderia levá-lo ao desespero.
As consequências impedem a maioria dos homens contemporâneos de ter a cognição de “terrores genuínos”, como o da sua própria morte.
Isso permite-lhes existir pacificamente, servindo inconscientemente os objetivos imediatos da Natureza.
Para se aquietarem, inventam explicações fantásticas para o que realmente sentem ou não sentem.
A Falácia da Vontade Humana como Explicação
Se a questão da incapacidade de sentir terrores se tornasse premente, as pessoas atribuiriam a causa à sua “vontade”.
Contudo, essa suposta vontade não nos protege de pequenos medos, como o de um rato a passar pelo corpo na cama.
É impossível explicar esta contradição pela ação da famosa vontade humana.
A Permissão da Natureza para os “Terrores Infantis”
Considerada abertamente, torna-se evidente que estes terrores são permitidos pela Natureza na medida necessária para o processo da nossa existência ordinária.
Sem estas “picadas de pulga” (que nos parecem “terrores sem precedentes”), não teríamos experiências de alegria, tristeza, esperança, desilusão, etc., que nos constrangem a agir e a esforçar-nos por um objetivo.
A Vida como Meio para Fins Cósmicos Superiores
Se o homem médio sentisse verdadeiramente a inevitabilidade da sua morte, tudo na sua vida perderia sentido.
Para que esta questão não surja, a Grande Natureza protegeu-os, permitindo o surgimento de consequências que os impedem de perceber ou sentir a realidade.
A Natureza adaptou-se a esta anormalidade porque as radiações dos homens, de qualidade deteriorada, exigiam um aumento da quantidade de vidas para manter o equilíbrio cósmico.
Conclusão: “A vida em geral é dada às pessoas não para si mesmas, mas que esta vida é necessária para os referidos Fins Cósmicos Superiores”.
A Natureza cuida da nossa vida para que flua de forma tolerável e não cesse prematuramente, tal como nós cuidamos de ovelhas e porcos para os abater mais tarde.
A Servidão ao Propósito Comum e a Diferença entre Homens
“Há na nossa vida um certo propósito muito grande e todos devemos servir a este Grande Propósito Comum”.
Todas as pessoas são escravas desta “Grandeza” e devem submeter-se ao que foi predestinado pela hereditariedade e pelo Ser adquirido.
A diferença entre o “homem real” (com o seu “Eu”) e o “homem entre aspas” (sem o seu “Eu”) é que o primeiro, sendo consciente da sua escravidão, pode aplicar parte das suas manifestações para adquirir “Ser imperecível”.
O segundo, não conhecendo a sua escravidão, serve apenas como uma coisa que, quando não é mais necessária, desaparece para sempre.
Analogia do Rio da Vida
A vida humana em geral é comparada a um grande rio, e a vida de um homem a uma gota de água nesse rio.
Num determinado local, o rio divide-se em dois fluxos separados (“divisão das águas”).
Um fluxo flui para um vale mais nivelado e desagua no vasto oceano.
O outro fluxo cai em fendas da terra e infiltra-se nas profundezas.
As águas dos dois fluxos já não se misturam, mas aproximam-se por vezes, e gotas podem passar de um fluxo para o outro.
Aplicação da Analogia à Vida Humana
A vida de cada homem até à idade responsável corresponde a uma gota no fluxo inicial do rio.
A divisão das águas corresponde ao momento em que atinge a idade adulta.
O destino subsequente de qualquer gota é determinado pelo fluxo em que entra na divisão das águas.
Para as gotas, não há uma predeterminação separada do seu destino pessoal; um destino predeterminado é para todo o rio.
O “Algo” que Determina o Fluxo
Este “algo”, que na presença comum de uma gota é um fator que atualiza a propriedade correspondente a um ou outro fluxo, é o “Eu” no homem.
Um homem que tem o seu próprio “Eu” entra num dos fluxos; um homem que não o tem entra no outro.
O Destino dos Dois Fluxos
O fluxo que desagua no oceano permite que a gota evolva para a concentração superior seguinte, através de processos como o “Pokhdalissdjancha” (ciclo).
O fluxo que desagua nas “regiões inferiores” da Terra participa no processo de “construção involucionária” dentro do planeta, transformando-se em vapor e distribuindo-se em esferas de novos surgimentos.
A Possibilidade de Cruzar de um Fluxo para o Outro
Para os que já atingiram a idade responsável e não adquiriram o seu “Eu”, não é ainda tarde demais.
Investigações e experiências mostraram que a Mãe Natureza previu a possibilidade de os seres adquirirem o cerne da sua essência mesmo após o início da idade responsável.
Esta possibilidade consiste em cruzar de um fluxo para o outro.
A expressão “a primeira libertação do homem” refere-se a esta possibilidade de cruzar do fluxo destinado a desaparecer nas profundezas para o fluxo que desagua no oceano.
A Morte e a Ressurreição durante a Vida
Cruzar para o outro fluxo não é fácil; é necessário um desejo constante e inesgotável e uma longa preparação.
É necessário renunciar a todas as “bênçãos” (hábitos automaticamente adquiridos) do fluxo de vida atual.
“É necessário tornar-se morto para o que se tornou a sua vida ordinária”.
“É justamente desta morte que se fala em todas as religiões”.
“Sem morte não há ressurreição”.
Esta morte não é a morte do corpo, mas a morte do “Tirano” de onde procede a nossa escravidão nesta vida.
Síntese Final e a Propriedade de “Refletir a Realidade de Cabeça para Baixo”
Somando tudo o que foi dito, é necessário enfatizar que todos os mal-entendidos na vida coletiva, disputas, guerras, etc., ocorrem devido a uma propriedade nas pessoas comuns: “o-refletir-da-realidade-na-sua-atenção-de-cabeça-para-baixo”.
As experiências que inicialmente parecem terrores absolutos, mais tarde, quando recordadas, não valem “um vintém”.
“No homem médio, os resultados da sua mentalização e sentimentos muitas vezes levam a isto, que, por assim dizer, 'uma mosca se torna um elefante e um elefante uma mosca'”.
A Psicose de Massa e a Perda da Consciência
Esta propriedade é particularmente intensa durante eventos como guerras e revoluções, quando as pessoas caem no estado de “psicose de massa”.
Sob a ação de histórias maléficas de lunáticos, as pessoas tornam-se vítimas e manifestam-se automaticamente.
Durante este período, deixa de existir na sua presença comum a sagrada “consciência”.
A Natureza já não precisa da psicose de massa para o seu equilíbrio; pelo contrário, esta obriga-a a novas adaptações.
A Divisão Histórica da Humanidade em Dois Fluxos
Dados históricos mostram que as pessoas de épocas anteriores não se dividiam em dois fluxos de vida, mas fluíam num único rio.
A divisão começou na época da “civilização Tikliamishiana”, que precedeu diretamente a civilização babilónica.
Foi estabelecida uma organização da vida que só pode fluir mais ou menos toleravelmente se as pessoas estiverem divididas em mestres e escravos.
O Compromisso: Tornar-se um Mestre Consciente
Ser mestre ou escravo é indigno do homem, mas dadas as condições fixadas, devemos aceitar um compromisso.
O compromisso: certas pessoas devem conscientemente definir como objetivo principal adquirir os dados para se tornarem “mestres” entre os seus semelhantes.
Não mestres no sentido de ter muitos escravos e dinheiro, mas no sentido de, através de atos objetivos e devotos para com os outros, adquirir “aquele algo” que constrange todos à sua volta a inclinar-se perante ele e a cumprir as suas ordens com reverência.
Citando o ditado antigo: “para ser na realidade um altruísta justo e bom, é inevitavelmente necessário ser primeiro um egoísta completo”.
Conclusão da Primeira Série e Planos para o Futuro
O autor considera a primeira série dos seus escritos terminada de uma forma que o satisfaz.
Dá a sua palavra de que, a partir do dia seguinte, não desperdiçará “nem cinco minutos” do seu tempo nesta primeira série.
Intenção de Descansar e Beber “Velhos Calvados”
Antes de começar a trabalhar na segunda série, o autor pretende descansar um mês, não escrevendo positivamente nada.
Para estimular o seu organismo, fatigado ao extremo, beberá lentamente as quinze garrafas restantes de “néctar super-mais-super-celeste” chamado “Velhos Calvados”.
Estas garrafas foram encontradas acidentalmente, enterradas numa cave, provavelmente por monges que viveram longe das tentações mundanas.
Planos para a Segunda e Terceira Séries
Há um ou dois anos, o autor decidiu tornar apenas a primeira série geralmente acessível.
Para a segunda série, pretende organizar leituras públicas simultâneas em vários centros grandes.
Para a A vida é real só quando eu sou, tornar as verdades objetivas acessíveis exclusivamente a ouvintes selecionados da segunda série, de acordo com as suas instruções.
O objetivo fundamental: provar teoricamente e, posteriormente, mostrar praticamente, que o Inferno e o Paraíso existem, “mas apenas não 'naquele mundo', mas aqui ao nosso lado na Terra”.