No tempo presente, quando o funcionamento do
corpo planetário de algum ser do
planeta se desregula e ele cessa de poder cumprir suas obrigações
esserais, os médicos contemporâneos são chamados, vêm de fato, mas quanto à forma como ajudam e como cumprem internamente as obrigações que tomaram sobre si, é justamente aí que está, como diz o estimado Mullah Nassr Eddin, “enterrado o camelo morto do mercador Vermassan-Zeroonan-Alaram”.
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Os seres que se tornam médicos profissionais são, em sua maior parte, aqueles que durante o período de preparação para a existência responsável conseguiram “aprender de cor” muitas informações diversas sobre os meios de combater as “doenças”, meios que velhas decrépitas usavam e aconselhavam em todos os tempos anteriores
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Entre esses meios figuram principalmente os remédios existentes sob o nome de “medicamentos”
Uma propriedade psíquica peculiar é adquirida na psique dos médicos contemporâneos do
planeta Terra assim que recebem o título de “médico qualificado”, e ela funciona constantemente durante o desejo de ajudar os seres que precisam de auxílio: tanto a intensidade do desejo de ajudar quanto a qualidade da ajuda dependem exclusivamente do cheiro que há na casa para a qual é chamado.
Ao sair da casa de quem precisava de sua ajuda nesse segundo caso, o médico contemporâneo caminha pela rua com toda a sua exterioridade, inclusive os músculos do rosto, expressando algo como: “Seus canalhas, cuidado! Não vejam que aqui vem não qualquer um, mas um genuíno representante da ciência que assimilou plenamente o conhecimento do mais elevado centro de ensino contemporâneo!”
Os jovens seres que se preparam para se tornar médicos apenas aprendem de cor o maior número possível de nomes entre os muitos milhares de meios medicinais conhecidos, e quando já se tornaram seres responsáveis com a profissão de médico, toda a ajuda que prestam consiste em fazer um esforço
esseral de certa intensidade para lembrar o nome de alguns desses meios e escrevê-los num pedaço de papel chamado “prescrição”, com a intenção de prescrever a mistura a ser introduzida no
corpo planetário do “inválido”.
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A intensidade desse esforço depende, em primeiro lugar, do “status social” do ser que necessita de ajuda e, em segundo, do número de olhos fixos neles pelos seres que cercam o doente
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A prescrição escrita é levada pelos familiares do doente a uma das “farmácias” contemporâneas, onde os “farmacêuticos” preparam as misturas necessárias
Para elucidar como em geral tais misturas são preparadas nas farmácias e de que exatamente são compostas,
Beelzebub narra uma informação que lhe foi transmitida por um farmacêutico de sua amizade: durante suas frequentes visitas à grande comunidade chamada Rússia,
Beelzebub estabeleceu relações amigáveis com um farmacêutico idoso da cidade chamada “Moscou”, de caráter muito bondoso e pertencente à chamada “fé judaica”.
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Naquele
planeta, naquele período, os farmacêuticos são em sua maioria, por razões desconhecidas a
Beelzebub, seres pertencentes à fé judaica
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Beelzebub costumava visitar regularmente o “laboratório” dos fundos da farmácia desse amigo para conversas sobre assuntos variados
Numa dessas visitas,
Beelzebub encontrou o farmacêutico pilando algo num almofariz e, ao perguntar o que fazia, ouviu que era “açúcar queimado para esta receita”; tratava-se de uma receita amplamente difundida sob o nome de “pó de Dover”, inventado por um inglês chamado Dover e usado principalmente para tosses.
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Como o açúcar não constava da receita original,
Beelzebub expressou sua perplexidade
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O farmacêutico explicou, com sorriso bondoso, que o pó de Dover contém uma certa percentagem de “ópio” e que era muito popular na Rússia, sendo usados centenas de milhares de pacotes diariamente em todo o país
O farmacêutico explicou que o ópio da receita original é caro demais e insuficiente para cobrir a demanda da Rússia sozinha; por isso os farmacêuticos inventaram outra receita composta de substâncias facilmente obtíveis e acessíveis, consistindo em soda, açúcar queimado e uma pequena quantidade de quinino, totalizando cerca de 2% de quinino no conjunto, sem nenhuma substância nociva ao organismo.
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O pó assim preparado é em cor idêntico ao genuíno e em sabor, graças à proporção de quinino, absolutamente indistinguível do original com ópio real
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Uma análise completa de um único pó custaria tanto que permitiria comprar meio quintal desse pó ou mesmo abrir uma farmácia inteira, de modo que ninguém faz tal análise por três ou cinco copeques
O farmacêutico esclareceu que os “químicos analíticos” oficiais das cidades são na maioria jovens que estudaram em universidades a partir de livros fabricados na Alemanha, aprendendo a reconhecer substâncias por aparência, sabor, queima e outros métodos rudimentares, e que antes de receber um posto responsável fazem “prática” em matadouros, ajudando a verificar triquinas na carne de porco.
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Ao receber um pó de Dover para análise, esse químico analítico oficial o reconhece pela aparência ou pelo rótulo, consulta o “guia farmacêutico” alemão obrigatório, e preenche um formulário copiando a fórmula do guia, aumentando ou diminuindo ligeiramente alguns números para aparentar que realizou uma investigação real
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Ninguém pode verificar esse procedimento, pois ele é o único químico analítico oficial da cidade e o pó analisado foi destruído no processo
O farmacêutico declarou que há trinta anos prepara esses pós segundo a receita própria e que nunca teve nenhum mal-entendido em razão do pó de Dover, pois o que qualquer remédio precisa é ser conhecido como eficaz, e a fé de uma pessoa em qualquer remédio surge somente quando ele é conhecido e quando muitos dizem que é muito bom para determinada doença.
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O farmacêutico considerava sua nova composição melhor que a original, por não conter ópio nem qualquer substância nociva ao organismo
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O ópio, tomado com frequência mesmo em pequenas doses, acostuma o organismo a tal ponto que sua interrupção causa sofrimentos intensos, o que não ocorreria com a composição substituta
Beelzebub encerra o relato do farmacêutico e aconselha
Hassein a saber, a partir dessa narrativa, que embora os médicos escrevam dezenas de nomes sábios em suas prescrições, os remédios são preparados nas farmácias quase sempre à moda daquele pó de Dover; os farmacêuticos às vezes preparam pela manhã um barril inteiro de algum líquido e uma caixa inteira de algum pó, servindo a todos que trazem receitas durante o dia, adicionando corantes e aromatizantes para variar a aparência.
De entre os muitos milhares de meios medicinais conhecidos aplicados pelos médicos contemporâneos, apenas três às vezes produzem resultados reais para os
corpos planetários dos seres
tricerebrais ordinários contemporâneos: o ópio, obtido da planta papoula pelos seres de Maralpleicie e por eles chamado de tal; o óleo de rícino, usado pelos seres do Egito no embalsamamento de múmias e cuja utilidade medicinal eles descobriram, conhecimento que lhes chegou dos membros da sociedade Akhaldan do continente Atlântida; e a substância obtida da “árvore da quinquina”.
O título “doutor” foi inventado pelos seres da comunidade Alemanha para definir algum mérito específico de alguns entre eles, mas essa invenção, amplamente difundida por todo o
planeta, tornou-se por alguma razão o nome nominal comum para todos os médicos contemporâneos, acrescentando mais um fator à série de fatores que constantemente induzem esses seres ao erro e tornam a razão
esseral deles cada vez mais “makhokhitchne”.
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Em razão dessa palavra, o próprio
Ahoon, apesar de possuir uma presença incomparavelmente mais normal e estar revestido de uma razão
esseral de qualidade superior, teve um mal-entendido muito desagradável, quase idiota
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Ahoon narrou que durante a sexta visita ao
planeta Terra, quando estavam por algum tempo na capital da comunidade alemã que inventou a palavra “doutor”, numa vizinhança de hotel habitava um casal recém-casado com quem
Ahoon travou conhecimento; a esposa estava “em estado interessante” e esperando o primeiro filho; quando o marido estava ausente, ela sentiu-se mal e bateu nervosamente na parede do quarto de
Ahoon, pedindo-lhe que fosse buscar um “doutor”.
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Ahoon correu para a rua sem saber onde ir, lembrou-se de um ser que todos chamavam de “doutor” e cuja placa na porta indicava o título, e foi até ele
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O ser estava jantando com convidados e
Ahoon esperou quase vinte minutos; quando o “doutor” finalmente apareceu, respondeu à solicitação de
Ahoon com risos incontroláveis, revelando que era “doutor de filosofia” e não de medicina
Ahoon saiu novamente para a rua sem solução e, ao lembrar-se de outro ser chamado “doutor” que frequentava um café, foi até lá de táxi, mas o atendente informou que esse ser havia acabado de partir com amigos para um restaurante distante.
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No restaurante,
Ahoon encontrou finalmente esse “doutor”, que se revelou ser “doutor de jurisprudência”
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Completamente perdido,
Ahoon apelou ao maître do restaurante, que se revelou muito bondoso e foi pessoalmente com ele até um médico, desta vez chamado “doutor-parteiro”
Encontraram o médico em casa e ele concordou em ir imediatamente, mas durante o trajeto a vizinha de
Ahoon já havia dado à luz um menino, seu primogênito, e enfaixado o bebê sozinha, adormecendo depois dos terríveis tormentos sofridos em solidão.
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A partir daquele dia,
Ahoon passou a odiar com todo o ser o som da palavra “doutor” e aconselharia cada ser do
planeta Terra a usá-la somente quando estiver muito irritado
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Para melhor compreender o significado dos médicos contemporâneos,
Ahoon transmite o dito do estimado Mullah Nassr Eddin sobre eles: “Para nossos pecados,
Deus nos enviou dois tipos de médicos, um para nos ajudar a morrer e o outro para nos impedir de viver”