Eneagrama

DEFOUW, Richard. The Enneagram in the Writings of Gurdjieff. Indianaplis: Dog Ear, 2011

O eneagrama é um símbolo composto construído a partir de um círculo, um triângulo e uma figura estranha de seis lados que chamarei de hexagrama (ver figura acima). Ele recebe seu nome dos nove pontos no círculo que formam os vértices do triângulo e do hexagrama (ennea sendo o termo grego para “nove”). A maior parte do que sabemos sobre o símbolo vem do registro dos ensinamentos orais de Gurdjieff criado por P. D. Ouspensky sob o título Fragmentos de um ensinamento desconhecido (FED). Aqui, me baseio no relato de Ouspensky para mostrar que a aura de mistério transmitida por esse título é plenamente justificada em relação ao eneagrama.

As explicações de Gurdjieff sobre o eneagrama, conforme reconstruídas por Ouspensky, concluem com as seguintes observações intrigantes (FED, p. 294):

Essas observações explicam grande parte do fascínio que o eneagrama exerce sobre os estudantes de Gurdjieff. Elas também formam a base para grande parte deste livro, pois um dos meus principais objetivos é explicar como o eneagrama deve ser lido como um diagrama esquemático do movimento perpétuo. Nesse movimento perpétuo, veremos os três componentes geométricos do eneagrama funcionando juntos como partes de um todo orgânico; esse todo orgânico, sugiro, é o “símbolo vivo” mencionado no final da citação. Em conjunto com uma certa passagem do último capítulo de seus escritos, o mecanismo de movimento perpétuo nos permite entender por que Gurdjieff equipara o eneagrama à pedra filosofal dos alquimistas. Também nos permite resolver vários outros mistérios de longa data, incluindo o mistério do intervalo deslocado que descreverei agora.

Segundo Gurdjieff, certos processos se desenvolvem em etapas que imitam a progressão de uma nota para outra em uma escala musical. Assim como o intervalo entre notas sucessivas da escala maior é diminuído entre mi e fá e entre si e dó, existem dois pontos correspondentes nesses processos onde a energia do processo diminui e deve ser complementada por energia externa se o processo quiser continuar em sua direção original. Assim, esses processos têm a estrutura de uma oitava. Em uma palestra reproduzida em Fragmentos de Ouspensky, Gurdjieff explica que o eneagrama é um símbolo da oitava. Mas ele também chama atenção para uma discrepância crucial: em uma leitura superficial do símbolo, o intervalo especial que deveria estar entre si e dó parece estar localizado, em vez disso, entre sol e lá. Esse é o mistério do intervalo deslocado. Gurdjieff insiste que a discrepância não reflete nenhuma imprecisão na representação da oitava pelo eneagrama, mas sim indica a necessidade de uma compreensão mais profunda do símbolo. Mostro neste livro que o intervalo assume sua posição correta entre si e dó uma vez que sabemos ler o eneagrama como um diagrama esquemático do movimento perpétuo.