A presença da terceira força pode reverter os papéis de primeira e segunda forças, como expresso no ditame frequentemente citado de
Nicoll: “Quando a vida é Força Neutralizante, a personalidade é ativa no ser humano e a essência é passiva; quando o Trabalho é Força Neutralizante, a posição se inverte — a essência, ou parte real, torna-se ativa, e a personalidade, ou parte adquirida, passiva.”
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Esse mesmo padrão está brilhantemente ilustrado no conto “Boa Gente do Interior”, de Flannery O'Connor, no qual a protagonista Joy, que adota o nome de “Hulga” e cultiva a vitimização, tem sua prótese roubada por um vendedor de Bíblias canalha que, ao roubar o emblema de sua vitimização, acaba revertendo as polaridades de primeira e segunda força em sua vida.
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À maneira típica de Flannery O'Connor, o vendedor de Bíblias revela-se, no final, um muito bom vendedor de Bíblias, anunciando a boa nova da cura e da libertação.
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Uma diferença fundamental a ser aprendida na
Lei do Três é a distinção entre um compromisso negociado tradicional e um autêntico novo surgimento, cujo elemento quase invariável é a surpresa: uma pessoa que entra de fora, uma sincronicidade repentina ou uma complicação inesperada que lança toda a situação num novo campo.
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Diferentemente de um compromisso que com frequência deixa ambas as partes insatisfeitas e ainda polarizadas, há uma qualidade de “aha” numa solução da
Lei do Três que permite que as primeira e segunda forças relaxem e se retirem de seus respectivos postos.
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Um exemplo histórico ilustra essa mistura característica: numa pequena faculdade de artes liberais progressista da Nova Inglaterra, após uma presidente eleita sob pressão feminista fracassar num ambiente gravemente polarizado, um banqueiro aposentado assumiu interinamente a reitoria e permaneceu por dez anos, durante os quais batalhas se suavizaram, o contentamento retornou e a instituição voltou a crescer numa década lembrada com carinho como de prosperidade e boa vontade sem precedentes.
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Um novo surgimento nem sempre é o mesmo que uma solução física para o problema em questão: por vezes é simplesmente a infusão de uma qualidade mais sutil de vivacidade, uma resolução no nível imaginal, em cuja luz o significado real da situação é transfigurado.
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O conto “O Presente dos Reis Magos”, de O. Henry, ilustra essa nuance: o casal de recém-casados que, sem saber, vende o único bem precioso que possui para presentear o outro — ele empenha o relógio de bolso para comprar pentes para o cabelo dela; ela vende o cabelo para comprar uma corrente para o relógio dele — configura uma tríade clássica da
Lei do Três.
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Primeira força é o amor do casal um pelo outro; segunda força é a pobreza; terceira força é a disposição de sacrificar os bens mais preciosos por amor — qualidade identificável como kenosis, o esvaziamento de si mesmo.
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O novo surgimento é “o presente dos reis magos”: a realidade do amor mútuo transformada em puro ágape e manifestada de maneira inteiramente nova.
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Os professores do Trabalho são unânimes em avaliar que os seres humanos tendem a ser cegos à terceira força, e
Needleman a formulou diretamente: “A terceira força é invisível para os seres humanos no estado ordinário de consciência em que vivem”, especificamente porque a consciência ordinária está condicionada à percepção por diferenciação — ao pensamento de ou/ou — enquanto a detecção da terceira força requer um sentido finamente desenvolvido de ambos/e.
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A discussão em grupo não chegou a um consenso sobre se a terceira força é descoberta numa situação, criada ou invocada, mas a conclusão emergente foi a de que ela é parteada, e a parteira é a atenção consciente.
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Uma diretora de agência de serviços governamentais transformou uma sessão anual de defesa orçamentária diante de adjudicadores ao substituir o discurso preparado por agradecimento sincero pelos recursos do ano anterior e detalhamento do bom trabalho realizado, introduzindo assim a gratidão como terceira força faltante e deslocando o campo energético da escassez para a abundância — recebendo ao final o valor integral solicitado.
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Às vezes a infusão de terceira força chega de forma ainda mais direta, como no caso de um estudante que, numa reunião de negócios que espiralava para fora de controle, abriu-se a uma Sabedoria que pareceu vir de além de si e falar através de si.
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Ele descreveu a experiência como “pisar no ar e ser sustentado”, com as palavras surgindo sem terem sido cognitivamente preparadas, sem combatividade nem necessidade de vencer argumento, e sem negar nem emendar o que fora dito antes, introduzindo algo novo e restaurando o relacionamento com o cliente.
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Sua reflexão posterior sugeriu que a “objetividade” é um marcador de campo útil para identificar a terceira força: “A terceira força contém poder transformador porque não toma partido. Não tem um cão na briga. Poderia se dizer que é compassivamente indiferente?”
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A
Lei do Três é aplicável a uma gama tão ampla de disciplinas simplesmente porque é de fato uma
lei cósmica — um princípio organizador que “permite ao mundo ser o que é”, nas palavras do Dr. Jyri Paloheimo — e o fato de ser igualmente hábil nos domínios da psique e da matéria pode conter uma pista importante para a cura da cisão entre ciência e religião que atormentou a mente ocidental por mais de quinhentos anos.