A questão da alma, segundo
Gurdjieff, não pode ser discutida com real significado enquanto se pensar nela em termos da experiência ordinária, pois a possibilidade da alma reside em certas substâncias presentes no homem que, quando organizadas, se transformam no
corpo Kesdjan, veículo externo da alma.
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O homem ordinário, em quem essas substâncias não se cristalizaram, não é imortal, embora haja algo sensível nele capaz de sobreviver temporariamente à morte do
corpo físico.
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A imortalidade do homem não é existencial, mas está assentada em sua Razão Objetiva.
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O homem se torna imortal apenas quando constrói para si sua própria alma completa.
A União com
Deus é outra forma de apresentar o objetivo do desenvolvimento humano, sendo próxima da Visão Beatífica do Cristianismo e comum aos sufis do sul e à mística cristã, enquanto para os sufis do norte e os budistas o objetivo real é a libertação das condições da existência.
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A questão de saber se
Gurdjieff adota a doutrina do Itlaq, ou libertação, atribuída pelos sufis do norte aos Khwajagan e aos Mestres da Sabedoria, só pode ser respondida mediante exame mais detalhado da doutrina gurdjieffiana do homem.
A descrição do homem como ser
tricerebral e o ensinamento psicológico sobre os centros apresentam certa complexidade progressiva, pois
Gurdjieff partiu de três centros, adicionou o centro do movimento, o centro sexual e depois os centros Superior Emocional e Superior Mental, chegando a sete no total.
O homem, por ser capaz de ser portador da força reconciliadora, é dito feito à imagem de
Deus, podendo representar em si mesmo o Funcionamento Cósmico pelo qual os mundos espiritual e material são harmonizados e o Propósito Divino é realizado.
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A força afirmativa ou positiva está na cabeça, no cérebro.
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A força de negação ou negativa está no
corpo, na função sensório-motora.
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O princípio reconciliador ou terceiro está na natureza emocional, disperso em vários centros na região do peito, o que tem tanto significado psicológico quanto cósmico.
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Gurdjieff designou a emanação primária da Fonte Primária como
Theomertmalogos, ou
Deus-Palavra, lançando luz sobre a doutrina teológica da Santíssima Trindade.
A descrição do homem como ser
tricerebral e o ensinamento sobre os centros apresentam certa confusão, em parte deliberada, pois
Gurdjieff apresentava ideias incompletas e as modificava progressivamente até que seus alunos pudessem reter um conceito complexo.
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Comentadores de
Gurdjieff não apreenderam plenamente a significância do homem como ser
tricerebral tal como apresentado em Os Contos de
Belzebu.
A transição da ideia do homem
tricerebral para o homem com quatro partes é ilustrada no último capítulo de Os Contos de
Belzebu pela imagem de uma carruagem, em que o coche representa o
corpo, o cavalo os sentimentos, o cocheiro a mente e o passageiro ou verdadeiro Mestre o eu.
O ceticismo contemporâneo em relação às promessas do desenvolvimento humano conecta-se à questão histórica de como reconciliar a crença no Amor de
Deus com os fatos observados do sofrimento, do pecado, da doença e da frustração.
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Essa questão não surgiu até que a Justiça Cósmica e a benevolência do Poder Divino foram proclamadas, cerca de quinhentos anos antes de Cristo.
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Antes dessa época, os poderes superiores eram considerados caprichosos e indiferentes ao sofrimento humano.
Gurdjieff, ao contrário do humanismo que atribui o sofrimento à imaturidade humana e postula uma evolução ilimitada, propõe que os Poderes Superiores perceberam em certo período uma situação perigosa no
planeta Terra e intervieram implantando no homem o Órgão
Kundabuffer, situado na base da espinha, que impedia o homem de ver a situação como realmente era e o levava a basear seus valores exclusivamente na satisfação de desejos e na busca da felicidade.
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A operação do lobo frontal remove quase todas as emoções desagradáveis sem destruir a capacidade de prazer, fenômeno que se assemelha ao descrito por
Gurdjieff.
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O homem de Neanderthal, com sua espinha curvada, foi subitamente substituído por precursores do homem moderno há cerca de 35.000 anos, o que é consistente com o relato de
Gurdjieff no Capítulo X de Os Contos de
Belzebu.
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Gurdjieff vincula o aparecimento do Órgão
Kundabuffer ao desenvolvimento da Lua e a condições no Sistema Solar de 100.000 a 70.000 anos atrás.
A evolução do homem ficou paralisada por quase cem mil anos e recomeçou vigorosamente trinta ou quarenta mil anos atrás, e quando o perigo de o homem cessar de transformar energias passou, o órgão foi removido, mas seus efeitos permaneceram hereditariamente como predisposição às suas propriedades.
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Um erro foi cometido: os responsáveis pela operação não previram que as gerações vivendo pelo princípio do prazer desenvolveriam um hábito transmissível hereditariamente.
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O homem continua obstruído por sua incapacidade de ver a situação como ela realmente é, vivendo como se ainda estivesse dominado pelo Órgão
Kundabuffer.
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A consciência foi enterrada no subconsciente, e com a mente consciente ordinária o homem continua a viver por direitos, ignorando suas obrigações.
A Lua é descrita por
Gurdjieff como inimiga do homem, e a produção da energia sutil necessária pode ocorrer voluntária ou involuntariamente: voluntariamente pelo labor consciente e pelo sofrimento intencional, ou involuntariamente pelo processo da morte.
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O Arcanjo Looisos interveio, segundo Os Contos de
Belzebu, para implantar o Órgão
Kundabuffer e evitar perturbações ligadas à evolução da Lua.
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A explicação de
Orage de que a Lua deve ser entendida psicologicamente como sinônimo do Órgão
Kundabuffer é considerada simplista demais.
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A diferença entre o homem e o animal é que o homem é capaz de liberar essa energia por decisão consciente, liberando também as duas substâncias complementares necessárias para o desenvolvimento de seus dois
corpos-
esserais superiores.
O ensinamento de
Gurdjieff afirma que o homem tem a possibilidade de desenvolver três
corpos: o
corpo físico, que se desenvolve pela natureza; o
corpo Kesdjan, que se desenvolve pelo labor consciente; e o
corpo-
esseral superior, chamado
corpo da alma, que se desenvolve pelo sofrimento intencional.
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A Razão Objetiva não pode entrar no
corpo físico do homem, nem os centros ordinários de pensamento, sentimento, instinto e movimento podem ser seus instrumentos.
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O homem começa a adquirir Razão Objetiva apenas quando seu segundo
corpo já está formado, ainda que não perfeicionado.
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Noções semelhantes de
corpos superiores encontram-se nos ensinamentos budista e tântrico da Índia e do Tibet e nas doutrinas sufis da Ásia Central.
Existe uma discrepância entre as ideias apresentadas por
Ouspensky em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido e o próprio ensinamento de
Gurdjieff em Os Contos de
Belzebu, pois no primeiro a ênfase recai sobre o despertar dos centros superiores, que são descritos como já presentes em todos os homens, enquanto no segundo os
corpos superiores precisam ser desenvolvidos pelo trabalho do homem sobre si mesmo.
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O centro superior emocional é o órgão pelo qual o homem pode conhecer a Realidade que lhe diz respeito, a sede de sua consciência, de seu eu e de sua tomada de decisão.
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O centro intelectual superior é aquele pelo qual o homem tem contato com os Princípios Cósmicos; seu funcionamento é completamente fora da mente, não é um processo de pensamento ou percepção sensorial, sendo atemporal e imediato.
Gurdjieff afirma que o centro intelectual superior é o instrumento normal do homem número sete, aquele que passou além dos limites da individualidade e do próprio ser, e que seres
tricerebrais que vivessem normalmente pelo princípio Foolasnitamnian teriam a mesma duração de existência que todos os seres
tricerebrais normais do Universo.
Os termos relativamente comuns usados em Os Contos de
Belzebu para estados superiores de razão podem induzir a pensar que esses níveis são acessíveis por analogias com a experiência ordinária, equívoco que deve ser evitado para não reforçar a tendência antropomórfica.
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Nosso Comum Pai Infinitude, o Poder Sagrado pelo qual o Universo é trazido à existência e redimido, é descrito em termos muito humanos, o que é difícil de conciliar com as noções absolutas dos sufis e dos Khwajagan.
Gurdjieff distingue em Os Contos de
Belzebu entre Indivíduos Cósmicos encarnados de Cima e homens que atingiram alto grau de Razão Objetiva durante a vida na Terra e que, após a morte, se preparam para se unir ao
Sol Absoluto, tornando-se por sua vez Indivíduos Cósmicos.
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O Shivapuri Baba explicou de maneira semelhante que, após completar o ciclo de existência e atingir a libertação absoluta, o ser retorna à Fonte e não precisa mais encarnar, mas pode voltar à Terra, como Jesus Cristo, para ajudar a humanidade.
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Ouspensky relatou
Gurdjieff como tendo dito que, ao se medir o Ser de Jesus Cristo, poder-se-ia chamá-lo de Homem Número Oito.
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Ashiata Shiemash é descrito como tendo passado de Muito Santo a Santíssimo, tornando-se um Indivíduo Cósmico sem o qual Nosso Comum Pai Infinitude não se digna a atualizar medidas em benefício do Cosmos.
O fio que conecta o nível ordinário de ser através de todas as graduações até os níveis inefáveis além da própria existência e do ser é a Vontade, que é independente do ser e do nível, sendo omnipresente e o
Okidanokh Omnipresente.
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A individualidade e a vontade do homem como pessoa estão fora de vista, não apenas invisíveis aos outros, mas imperceptíveis para a própria consciência ordinária do homem.
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O Shivapuri Baba chamou de Véu da Consciência aquilo que nos separa de nossa própria realidade, que é a Vontade.
A consciência, como a vontade, está presente em todo homem, mas situada além de sua consciência ordinária, e diferentemente dos outros impulsos sagrados de Fé, Esperança e Amor, não sofreu degeneração.
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A consciência é um poder organizado em nós, capaz não apenas de fazer, mas de conhecer.
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A questão de saber se consciência e vontade podem ser simplesmente equiparadas permanece aberta e exige exame mais cuidadoso.
Em O Ensinamento de Ashiata Shiemash, os fatores para o impulso-
esseral da consciência surgem nos seres
tricerebrais a partir da localização das partículas das emanações do sofrimento do Criador, motivo pelo qual a fonte da manifestação da consciência genuína é às vezes chamada de Representante do Criador.
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O sofrimento é formado pela luta persistente no Universo entre alegria e sofrimento, e em todos os seres
tricerebrais a totalidade do ser deve ser sofrimento, pois sem isso o impulso da consciência não pode se manifestar.
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Essa explicação é típica da concepção mais profunda que permeia Os Contos de
Belzebu em comparação com a descrição relativamente simples da consciência apresentada por
Ouspensky.
A compreensão de
Gurdjieff sobre a consciência aprofundou-se após a grande crise de 1927 que lhe permitiu completar sua obra, mas os impulsos de Esperança, Fé, Amor e Alegria também são inerentes à natureza do homem, e o objetivo dos esforços não é um estado de sofrimento ininterrupto.
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Aqueles que seguiram o ensinamento de
Gurdjieff tenderam demasiadamente a olhar para o lado sombrio da vida, supondo que o trabalho era essencialmente uma questão de negação das alegrias.
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Gurdjieff ao final da vida era capaz tanto de alegria quanto de sofrimento, e era marcado por uma compaixão avassaladora.
A impossibilidade de falar adequadamente sobre aqueles que foram além das limitações da existência é ilustrada por Meister Eckhart, que descreveu esses seres como estranhos ao lar e incompreendidos, conhecidos apenas por aqueles em quem a mesma luz brilha.