Além das Palavras
Opening: Collected Writings of William Segal, 1985-1997, published by Continuum.
Como, de fato, seria possível ao homem, que está limitado por seis lados — pelo leste, oeste, sul, norte, profundidade e céu — compreender uma questão que está acima dos céus, que está abaixo da profundidade, que se estende além do norte e do sul, e que está presente em todos os lugares e preenche todo o vazio? — São Gregório, o Milagreiro (c. 213-268)
No momento em que morro para mim mesmo, no momento em que me abandono, a alegria — até mesmo o êxtase — irrompe em mim. Nesse momento, posso dizer sim a tudo o que afirmo como minha existência. Todo o mundo está bem exatamente como é.
O êxtase é uma experiência que está além da compreensão verbal e intelectual, um vislumbre de outra existência e completamente diferente das atitudes e pontos de vista comuns. O início do momento extático não depende nem provém do exterior de si mesmo. É um chamado da “pureza em si mesmo”, nas palavras de São Gregório; está presente em toda parte e preenche todo o vazio. É a mesma força que anima os impulsos instintivos, os pensamentos associativos. Mas é uma força que agora assume outra forma.
Como se pode experimentar o êxtase sem transcender a si mesmo, sem se libertar do domínio incessante da própria vida instintiva? Sair de si mesmo, estar em contato com a própria realidade essencial, é colocar em suspenso aquelas forças que dominam a existência.
Às vezes, um choque repentino traz a cessação dos processos associativos, intervém para libertar a pessoa do aprisionamento por si mesma. Mas, com demasiada frequência, o homem é incapaz de se desligar de si mesmo. Ele é incapaz de sair da escravidão bidimensional desse condicionamento de vinte e quatro horas pela sociedade para o mundo livre da alegria e do êxtase. Desde o momento de seu nascimento, uma cultura artificial tem corroído qualquer dimensão espiritual que ele pudesse possuir.
O Nirvana é onde as duas paixões se acalmaram e os dois obstáculos foram removidos. —Lankavatara Sutra
